Flora Süssekind
Doze pequenos blocos, feitos de cera e dentes de boi, dispostos lado a
lado numa das paredes da Galeria Camargo Vilaça (SP) na exposição
ali realizada pelo escultor Angelo Venosa em 1994, parecem figurar, de
modo particularmente exemplar, o movimento de redimensionamento narrativo
que tem marcado a produção cultural brasileira desde finas
dos anos 80.
Vistas de longe, por conta do uso do mesmo material e de dimensões
semelhantes, essas peças, rigorosamente diversas, sugerem uma sucessiva
reduplicação ou, pela disposição em linha,
um tipo peculiar de escrita. Seriação e linearidade que aproximam
este trabalho de Angelo Venosa de outras reflexões em torno da narratividade
presentes, mas de modo diferente, em quadros como "O que me leva a
você" (1987), de Leonilson, com sua representação
literal dos marcos de um percurso, ou no recente diálogo plástico
de Luiz Pizarro com o relato de viagem. Ou, no terreno poético,
presentes na retomada do poema longo por Haroldo de Campos em Finismundo
e Bernardo de Mendonça em "Peleja", nos pequenos casos
que compõem Crime na Calle Relator, de João Cabral de Melo
Neto, no trabalho com a série empreendido por Carlito Azevedo em
Banhistas. Ou, ainda, passando ao domínio teatral, no emprego sistemático,
com fins diversos, de um narrador por Gerald Thomas, Antunes Filho e Luiz
Artur Nunes e nas encenações voltadas para as formas de aproveitamento
dramático do monólogo interior realizadas, nos últimos,
por Eduardo Tolentino de Araújo.
Se o trabalho de Angelo Venosa expõe, via série, via materiais
precários, um esforço de temporalização, chama
a atenção, também, para um outro movimento de miniaturização
narrativa sensível sobretudo na prosa de ficção brasileira
recente. E evidenciado por uma tentativa de renomear as próprias
histórias, salientando exatamente essa redução de
escala. Lembre-se, nesse sentido, o subtítulo de Ah, é?,
de Dalton Trevisan: "ministórias". Ou a compressão
narrativa evidenciada pelo título da coletânea de contos de
1991 de Marilene Felinto: "postcard". Ou, em Ovelhas negras,
reunião de dispersos publicada por Caio Fernando Abreu em 1995,
a reflexão sobre dois textos mínimos seus "A perda" e "Sobre
o vulcão" que nomeia, via biologia, de "metâmeros" (anéis
do corpo de um verme, capazes de originar outros vermes) para sublinhar
o seu caráter de "textos que seriam como embriões de
si mesmos".
Mas se, no caso dos doze blocos de Angelo Venosa, é possível
falar em miniaturização, é pela relação
que esta série mantém com outro trabalho seu, muito maior,
mas feito com material idêntico, e apresentando na Bienal de Veneza
de 1993. Na verdade, toda a série de 1994 resulta da destruição
dessa peça única anterior, cujos destroços foram retrabalhados
pelo escultor. Estabelecendo-se, nesse movimento, uma espécie de
dupla temporalização da obra. Pois há, de um lado,
o ritmo que a sucessão de peças impõe à série.
E, de outro, o diálogo entre o grande bloco e a série. Entre
uma peça compacta, na qual os materiais parecem ficar entre parênteses
em função da visibilidade do trabalho como um todo, e os
doze trabalhos menores, onde os dentes de boi e a cerca tornam-se mais
visíveis, têm sua singularidade de organização
acentuada a cada repetição em escala reduzida. Narrativa
crítica, nesse caso, em que um trabalho resulta de uma fragmentação
interessada, de uma reflexão, em escala menor, sobre o anterior.
Quanto à miniaturização na ficção brasileira
contemporânea, é perceptível, por exemplo, no retorno
ao conto por Rubem Fonseca e João Gilberto Noll, na rejeição
do modelo genealógico de romance por Silviano Santiago em Uma história
de família, na capitulação em fragmentos relativamente
independentes empregada por Valêncio Xavier em Maciste no inferno
e O Minotauro, nas fábulas de Carlos Felipe Saldanha, nas pequenas
prosas de Dalton Trevisan, de Zulmira Ribeiro Tavares em O Mandril ou Vilma
Arêas em A terceira perna, na ênfase de Moacyr Scliar, ao reavaliar,
na coletânea de 1995, sua produção como contista, nos
textos mínimos, como "Memórias da Afasia" ou "Problema",
ou miniaturizados tipograficamente como "Notas ao pé da página",
todo ele um grande branco, comentado, em letras minúsculas, a partir
do rodapé. Mudança de escala que, como na série de
Angelo Venosa, parecer cumprir função igualmente crítica.
Porque essa compressão narrativa responde, de certo modo, ao movimento
inverso, em direção ao romance, que marcou a ficção
brasileira na virada dos anos 70 para os 80. Ditado, em parte, pelo interesse
comercial das editoras, em parte, pela submissão a uma hierarquização
de gêneros que dá primazia ao romance e pelo persistente desejo épico
que marca a literatura brasileira sobretudo desde o romantismo. Privilégio
do romance que, em vez de explorar o inacabamento e a auto-ironia constitutivos
do gênero, se tornou sinônimo de forma fixa, pouco problematizada.
Daí a dominância acrítica do romance histórico
e do policial, por vezes de uma mistura dos dois, na prosa brasileira.
O que não é, evidentemente, um limite do gênero. Basta
lembrar o que faz Virginia Woolf com a narrativa histórica em Orlando
ou Graciliano Ramos com a história criminal em Angústia.
Não há, no entanto, nada semelhante na sucessão de
relatos históricos e policiais em que se converteu a literatura
contemporânea. E que, mesmo nos seus exemplos "mais cultos",
como na mania por José Saramago, costumam se servir de uma erudição
de fachada e de um casticismo lingüístico como disfarces de
sua homogeneização conformista da narrativa e de um anacronismo
formal no entanto evidentes. A que parece responder criticamente essa retomada
da experimentação em formas breves, essa reflexão
via miniaturização sobre o exercício narrativo.
Flora Süssekind é pesquisadora da Casa de Rui Barbosa e se reveza neste espaço com Silviano Santiago , Alfredo Bosi e Luiz Costa Lima.