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Formas de pesadelo

Angélica de Moraes

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Com apenas cinco anos de carreira, o paulista Ângelo Venosa é uma das maiores unanimidades nacionais quando se trata de apontar jovens talentos da escultura contemporânea. Nesse período, o artista, de 35 anos, participou por três vezes do seletivo Salão Nacional de Artes Plásticas e uma vez da Bienal Internacional de São Paulo x dois dos espaços de maior prestígio no circuito artístico do país. Ainda nesse curto espaço de tempo, encaixou três individuais de impacto em galerias de primeira linha no Rio de Janeiro e em São Paulo e foi incluído numa mostra internacional de arte brasileira: a polêmica Modernidade, em Paris, em 1987. Como se não bastasse, acrescentou recentemente a suas façanhas a vitória num concurso para uma escultura pública para a Praça Mauá, no centro do Rio de Janeiro, que será remodelada. A escultura, recortada em aço, está em construção num estaleiro e será instalada na praça, em novembro, conferindo a Venosa o título de primeiro escultor de sua geração a ter uma obra num grande logradouro público carioca.
A partir desta quarta-feira e até o dia 4 de outubro se poderá conferir o talento de Venosa na exposição individual que ele realiza na galeria Sérgio Milliet, na Funarte, no Rio de Janeiro, dentro do projeto Ciclo de Esculturas, promovido pelo Instituto Nacional de Artes Plásticas (Inap). O instituto, que tem à frente a artista Iole de Freitas, transformou-se nos últimos tempos num dos raros exemplos no país de órgão público ligado à área cultural que funciona efetivamente e não se limita a fazer promoções de fachada e a atuar como repositório de empregos políticos.
"Ortopedista" x O bom desempenho de Venosa na difícil escalada para o primeiro plano do cenário artístico não se apoiou no recurso fácil de seguir trilhas abertas por nomes consagrados. Ele não teve medo de se chocar de frente com a tendência dominante da escultura brasileira, representada por monstros sagrados como Amílcar de Castro e Franz Weissmann x mestres da arte construtiva, feita de rigorosas formas geométricas. Em lugar da cerebral ordem de retas e ângulos, Venosa derramou sua imaginação em formas orgânicas e sinuosas de inspiração expressionista que tanto podem lembrar estranhos esqueletos de bichos de pesadelo quanto distorções desmesuradas da anatomia humana. "Minhas esculturas são uma espécie de descontrole genético de pele e carne, mas com uma ordem interna precisa nos ossos", imagina. Há um misto de repulsa e fascínio nessas formas, que tanto podem remeter ao clima de delírio gótico do filme Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott, quanto fazer sugestões de erotismo.
Venosa constrói suas peças como se fossem organismos fantásticos. Discos de madeira inseridos em perfis alongados lembram vértebras de uma coluna ou costelas. Sobre esse arcabouço, ele costumava estender um tecido embebido em gesso líquido e depois pintar tudo em tons grafite. "Meu ateliê parecia um consultório de ortopedista x era bandagem de gesso por todo lado", lembra. Ultimamente, ele substituiu esse material pesado e frágil por outros mais resistentes. Ao trocar o gesso por espuma de poliuretano, resina de poliéster e fibra de vidro, Venosa descobriu uma nova dimensão possível: a transparência. Ao revelar a estrutura interna da escultura, ele iniciou o que denomina de "análise sintática" do seu trabalho, separando o essencial do acessório.
É esta produção recente que ele mostra na galeria Sérgio Milliet. Como contraponto a essa redução, Venosa incluiu a ação do acaso. "Durante a reação química que produz a espuma de poliuretano, há um crescimento desordenado e rápido, como um bolo com excesso de fermento", ele explica. "Isso eu não controlo, apenas aproveito". Formado pela escola Superior de Desenho Industrial (Esdi), no Rio de Janeiro, Venosa é um autodidata no manuseio de plásticos e resinas. "Sou xereta, mesmo. Vou na loja e começo a infernizar o vendedor com perguntas. Depois, experimento". Foi também usando a intuição que ele distribuiu pesos e tensões da escultura em grande formato em aço que será instalada na nova Praça Mauá, no Rio. "quando os engenheiros foram calcular, estava tudo certinho", sustenta. "O método Giuseppe é infalível", ele brinca, lembrando o pai, Giuseppe Venosa, um habilidoso marceneiro que emigrou da Itália para São Paulo na década de 50 e fazia cenografias para festas do Clube Paulistano.
Teimosia x Venosa atribui ao resgate da aptidão artesanal aprendida em casa o fato de ter enveredado pela escultura quando toda sua turma de amigos x os artistas da chamada "Geração 80", como Daniel Senise e Luiz Pizarro x escolheu a pintura. Venosa ainda mantém ateliê em conjunto com Senise, num velho sobrado encarapitado numa ladeira íngreme do bairro de Santa Teresa, no Rio. Essa convivência produz animadas conversas e troca de opiniões sobre o trabalho. Ultimamente, Venosa tem criticado a pintura de Senise por motivos bem distantes da estética. O colega anda usando uma tinta muito líquida, derramada sobre telas enormes esticadas no chão do andar superior do sobrado. A tinta escorre pelas frestas da madeira e colore as esculturas de Venosa, no térreo. Enquanto Senise vende facilmente suas enormes telas neo-expressionistas e vive do que pinta, o escultor mantém seu emprego de chefe do setor de editoração da Fundação Casa Rui Barbosa e realiza trabalhos avulsos de programação visual para equilibrar o orçamento de sua vida de casado, pai de uma menina de 11 anos e de um menino de 11 meses.
Consagrado no circuito cultural, sucesso de crítica e de público nas mostras que realiza, Venosa ainda não conseguiu converter esse êxito em dinheiro. Ao contrário do que ocorre com a pintura, a prosperidade só costuma visitar os escultores nacionais em idade madura. Isso não os tem impedido de construir obras sólidas no panorama brasileiro. Venosa tem a teimosia necessária para também construir a sua. Uma obra que, em sua curta trajetória, já mostrou que tem uma das melhores qualidades necessárias para a sobrevivência: idéias próprias.

VEJA, 13 de setembro, 1989