Lorenzo Mammi
A obra de Venosa põe em xeque o conceito costumeiro de mímese.
Sua arte não se recusa a imitar a natureza, como a maioria das estéticas
desse século, nem reduz a natureza a um sistema de signos, a uma
imagem ou a um estímulo perceptivo, como as correntes realistas
e neo-figurativas. Simulando procedimentos orgânicos repete a relação
de esqueleto e pele, osso e cartilagem, matérias fluidas e coaguladas.
Pondo-se não à frente, mas atrás da natureza, como
se esta fosse produzida por seu gesto, o artista assume literalmente o
papel de criador. É, todavia, um criador que não pode transmitir
a vida. Muito pelo contrário, o ato de formalizar imobiliza o processo
orgânico numa tensão oca, imóvel. Com isso, a escultura
se aproxima à sua matriz pré-histórica: a múmia.
O ato de reproduzir, como a quebra de um tabu, engendra uma maldição:
o objeto natural resseca, incha, perde função e sentido.
Nele permanece apenas o impulso primário, congelado num esforço
inútil: a pele retesada, os dentes.
Numa das obras dessa exposição, Venosa dispõe em círculo
cabeças de fêmur, fielmente imitadas em mármore. O
organismo já morto passa, mediante a reprodução, por
uma segunda morte, e é finalmente revitalizado, mas de forma indireta,
por uma disposição ritual. A mesma cabeça de fêmur é o
modelo de uma grande escultura composta por 142 placas de ferro, empilhadas
como as linhas altimétricas de um mapa. Destituída de função,
detalhada por um cálculo engenheirístico, a forma do osso
se torna arbitrária, e revela assim a fragilidade da distinção
entre o orgânico e inorgânico, formal e informe. No entanto,
o próprio peso descomunal da escultura, seu excesso de massa, a
maneira pela qual as placas se sobrepõem, como numa pilha de Volta – tudo
isso restitui ao objeto um alo de vitalidade, uma eletricidade mesmérica.
Nas esculturas em cera, o contraste entre organicidade e formalização
se dá de maneira ainda mais evidente. Paralelepípedos ou
cilindros polidos, têm uma abertura, também geométrica,
que os atravessa de lado a lado crivada de dentes. Os dentes transformam
o interior oco das figuras numa garganta ou estômago que, em vez
de se colocar no espaço, o agride. A própria cera, aliás,
matéria orgânica, possui uma respiração que
contradiz a nitidez matemática dos planos. Se nas outras esculturas
Venosa congela o material orgânico, aqui procede na direção
oposta: a partir de uma forma perfeita e, portanto, morta, estabelece uma
relação gulosa, passional, com o espaço vazio. Transforma
a geometria em organismo. O que está em jogo, portanto, não é a
imitação das aparências da vida, mas a imitação
da própria vida, da maneira pela qual a vida se apropria do espaço.
A emotividade agressiva que exala desses trabalhos não está no
receptor nem no produtor – o gesto de Venosa é frio, assim
como frio é o olhar que ele exige. Surge da própria obra,
como uma espécie de vontade surda e já meio apagada de sobreviver, às
custas de tudo o que está em volta. Daí, e não de
deformações ou de detalhes macabros, deriva o caráter
monstruoso dela.
Para que a vida possa ser recriada, os materiais devem ser capazes
de viver, e no entanto estar mortos. Por isso, os elementos a serem investigados
são aqueles em que o ser vivo se confunde com a coisa inanimada:
os ossos e os dentes, a cera, a couraça, dos grandes insetos. Ou,
por outro lado, os metais, ferro e chumbo, massas de alta densidade, em
que a energia vital pode ser acumulada antes de ser reposta em circulação.
O que anima esse material ressecado, mumificado, inerte, é sempre
um desequilíbrio. Excesso de leveza, como nas obras expostas na
Bienal de São Paulo, grandes insetos que pareciam crescidos além
do limite de sua própria massa. Excesso de densidade, como nos últimos
trabalhos. Ou também uma jogada repentina, como nas duas caveiras
de boi que se juntam pelos dentes, por uma solda de metal fundido – bichos
gêmeos surpreendidos pela morte no ato de devorar-se um ao outro.
A morte os salvou, porque garantiu suas permanências. E, todavia,
a forma morta só faz sentido se remete à vida que continuamente
se destrói.