À primeira vista as esculturas recentes de Angelo Venosa são
enigmáticas. Deslocam o olhar para um lugar mais embaixo, um terreno
outrora sedimentado e que estas peças vêem revolver e tentar
potencializar. Dentes que mordem a retina, fragmentos que suportam uma memória
aterrorizada, há nelas uma beleza estranha que o olho não resiste
e contempla (ainda que arrepiando-se). Vestígios de cadáveres,
testemunhos de vidas já vividas, seu mistério seria aquele dos
que não tem mistério, simples exposição que nada
significa e que mesmo assim se dão a ver para assegurar sua penosa
significação. Enquanto evocação de uma arqueologia, "elas
deveriam anunciar a serenidade dos sentidos" em eventos ocorridos no
passado, mas, em vez disso, "trazem o desassossego do indeterminado" (Carlos
Basualdo).
Como denominou Ronaldo Brito, as primeiras esculturas do artista são
uma espécie de "fósseis vivos: grandes volumes devoradores
do espaço, inconsistentes porém, na medida em que não
possuem peso correspondente; formas prementes mas tateantes, carregando um
enorme potencial metafórico, com tendência ao alegórico
inclusive, que se apresentam entretanto quase com pudor". Formas calcinadas,
pós-apocalípticas, elas se estruturam a partir de uma interioridade,
de uma armação em torno de um certo vazio; jogam com o tensionamento
entre o interior e a superfície supondo uma expansão virtual
da forma; e referem-se à inviabilidade do design, do projeto, do conceito
de boa forma. Revelam, nas marchas e contramarchas do processo de elaboração
da obra, o embate do artista com a condição de sua produção
contemporânea: requer uma ação determinada, vigorosa e
obsessiva para seguir em um programa desencantado porque consciente do esgotamento
das formas modernas.
Na etapa seguinte seus trabalhos passaram a revelar o interior dessas formas.
Mas em lugar de expor a sua organicidade, a sua "natureza", percebe-se
o trabalho que as fez surgir: "estruturas de arame e madeira, momentos
de um fazer que não soube camuflar seus estágios, pois tornou-se áspero
demais para poder realizar esse duplo salto que consiste em ocultar-se
na própria matéria que atua. Em diversas passagens, esses suportes
inclusive repelem a cobertura, e surgem em sua crueza canhestra, pois aquilo
que deveria acolher alguma coisa – ou então expandir-se energicamente
– agora parece uma impotência dilacerante" (Rodrigo Naves).
Vivem, ainda que compostas de partes fortemente articuladas e interligadas,
na iminência
de romper-se, fragmentar-se em estilhaços. São irrupções,
de feições arcaica e ancestral, que se desprenderam do território
do imaginário para buscar uma existência sem finalidade clara,
porém pesada e transbordante no espaço.
Agora, se apresentam objetos crus, impenitentes e inexoráveis, construídos
a partir da justaposição e amontoamento de detritos, de fragmentos,
de objetos recolhidos, criados, reproduzidos e organizados em grupos lógicos,
de modo a refazer uma arqueologia da memória. Ordenações
primárias, que adotam o precário como estratégia, essas
obras tocam a questão da escultura diante do enigma de sua forma, insolúvel
mas sensível para uma investigação. A frontalidade de
algumas das peças sublinham a idéia de objeto com vida na tridimensionalidade,
autônoma. Memória da própria escultura, esse corpo de
trabalhos emerge de um desejo de exploração formal e matérico,
de uma obsessão construtiva e organizadora, informando sobre uma visão
dissecadora, determinada a provar e experimentar. Sugerem, por um lado, que
essas formas, nessas circunstâncias, pudessem ser entendidas apenas
como a emergência pontual de uma série de condições
que constituem a especificidade de uma linguagem sob a regência do modernismo.
Entretanto a materialidade dessas formas se recusa a pertencer a um mundo
habitado por fantasmas, resíduos do caos. Não se realizam como
fragmentos de uma língua que se perdeu, como indícios de sensações
e acontecimentos do passado, como vestígios de corpos vividos e obliterados,
que formam um nó sobre seu segredo. Elas não exprimem a crença
de que um inventário completo poderia produzir um corpo total.
As ordenações, o ajuntamento de partes recolhidas, a moldagem
e multiplicação desses vestígios de corpos reforçam
essas presenças intrigantes e apontam para além das preocupações
do artista com o jogo sutil das diversas manipulações da linguagem.
Metáforas sim, mesmo que diante delas nós hesitemos entre surpresa
e desdém. Venosa mobiliza a imaginação do espectador,
cercado por esses resíduos mudos, fragmentos de corpos irremediavelmente
alienados da existência que testemunharam, para formalizar histórias
abstratas, meandros metafísicos, para melhor referir-se às balizas
de uma história pervertida, que morde a própria cauda, que aos
fatos de uma história verdadeira. Se suas obras surpreendem, a princípio,
pelo seu caráter enigmático, elas estimulam a sagacidade do
espectador pressionado a desvendar as histórias do artista. Porque
esses corpos, possuem eles mesmos uma história abstrata (própria
da natureza do enigma), e seus elementos constitutivos são computados
como restos a partir dos quais se evidencia que não há um destino
primeiro, nem um destino final.
São Paulo, abril 1993
Referências
BASUALDO, Carlos. Cadáveres, projeto apresentado ao Whitney Museum
of American Art, New York, 1993, sem publicação.
BRITO, Ronaldo. Angelo Venosa (catálogo), Subdistrito Comercial de
Arte, São Paulo, 1986.
NAVES, Rodrigo. "Naturezas Mortas", Angelo Venosa (catálogo).
Galeria Sergio Milliet, Funarte, Rio de Janeiro, 1989.