Ronaldo Brito
O escultor contemporâneo vive sob o assédio constante de
um fantasma: o esgotamento das formas modernas. A depuração
exemplar da forma em Brancusi, a sua delapidação dramática
e essencial em Giacometti ou a sua inopinada e singular emergência
em Arp, por exemplo, investiam decididamente contra a tradição;
por isto mesmo, detinham o valor de atos inaugurais. A liberdade moderna,
como se sabe, acabou gerando um impasse estranho - como livrar-se da liberdade? Àquela
aparente disponibilidade total para o novo sucedeu a impressão da
impossibilidade inexorável do novo. Racionalizada e sublimada a
forma em elementos, desmistificada e ironizada em objetos e coisas, a condição
de existência da escultura passa a ser literalmente a de conseguir
aparecer de um modo convincente no mundo, conseguir pesar e interferir
no meio ambiente. E numa situação por assim dizer desencantada
- nem monumento da tradição, nem determinação
inédita do espaço.
Daí o aspecto compulsoriamente ambíguo, híbrido mesmo,
das esculturas de Angelo Venosa. De saída não podem recorrer à autoridade
da tradição, tampouco à originalidade moderna. Orgânicas
mas literais, metafóricas porém casuais, nem construídas
com elementos, nem esculpidas da matéria, elas são compelidas
a buscar, de dentro para fora, de fora para dentro, uma forma de existir.
A forma é o resultado de esforços sucessivos à caça
da forma; a forma vem também ao acaso, como os vários achados
em meio ao exaustivo trabalho físico; a forma acaba sendo ainda
um comentário tragicômico sobre todo esse andamento truncado.
A escultura pronta exibirá portanto um aspecto esdrúxulo,
excessivo e precário, vago e agressivo. Aqui o corpo-a-corpo com
os materiais não é um simples prelúdio para o triunfo
do gesto ascético ou genial do artista; não, os materiais
e o próprio caráter arcaico da operação resistem à boa-forma
e impregnam a escultura de uma atmosfera "natural", em todo caso
nada antropomórfica. Saturadamente históricas essas coisas
adquirem por isto mesmo uma conotação pré-histórica.
O que intriga de imediato é o paradoxo da elaboração
e reelaboração incessantes a serviço do incerto e
do indefinido; o embate vigoroso e cansativo com a forma para alcançar
quase o informe. O paradoxo é incontornável: para vir a ser
ele mesmo o trabalho deve deixar para trás, exorcizar até,
o fantasma das memórias modernas que habita e previamente nomeia
cada uma de suas manobras, cada uma de suas possíveis figuras. Só ao
termo, sempre ignorado, dos vários desdobramentos e encobrimentos
vai emergir a sua forma específica - ela se especifica assim através
de uma série de diferenças, só logra afirmar-se mediante
reiteradas negações.
Embora partindo a interioridade, as esculturas de Angelo Venosa terminam
sintomaticamente ocas. A interioridade é apenas uma armação
em torno de um certo vazio; essa armação designaria uma configuração
obsessiva cuja realização será entretanto negada pelas
etapas seguintes. Estas etapas consistem exatamente em torcer, macerar
e camuflar a feição inicial, visando, até certo ponto,
desfigurá-la. Não haveria, pois, forma completa – uma
sobra e um exagero constitutivos impedem a completude da escultura que
permaneceria virtualmente em expansão. E talvez seja sobretudo a
pressão da interioridade negada, a força do seu retorno à superfície,
o que vai inchar a forma e visivelmente desproporcioná-la. Numa
operação singular, a interioridade oca pressiona a superfície
e desmascara a sua pele. E agora é o tratamento "arbitrário" da
superfície, traiçoeiro com relação à estrutura,
que sofre o contra-ataque.
Tais marchas e contramarchas, se não justificam, ao menos explicam
em parte por que nos deparamos afinal com essa espécie de fósseis
vivos: grandes volumes devoradores de espaço, inconsistentes porém,
na medida em que não possuem peso correspondente; formas prementes
mas tateantes, carregando um enorme potencial metafórico, com tendência
ao alegórico inclusive, que se apresentam entretanto quase com pudor.
Flagrantemente imaginárias, essas esculturas parecem querer interromper
o livre curso das associações imaginárias. Uma certa
necessidade de eludir imagens dadas, sugestões psicológicas
mais ou menos correntes, é indispensável para preservar a
indeterminação da obra de arte contemporânea. A sua
forma de atração é diretamente proporcional à capacidade
de não se deixar consumir.
Abril, 1986